Jornal Nova Geração

SUPERAÇÃO

Na corrida, a recuperação contra o câncer

A história de Eduardo Schweitzer, 28, ganhou repercussão nacional devido à complexidade da cirurgia: ele ficou acordado e tocando ukulele. Sete meses depois do procedimento, realizou o sonho de novamente participar de uma prova de corrida

No Circuito dos Vales, Eduardo completou sua primeira prova de corrida depois da cirurgia. (Créditos: MARCIO RODRIGUES/FOCO RADICAL/DIVULGAÇÃO)

“Quando eu passei pela linha de chegada, a primeira coisa que eu fiz foi me ajoelhar e dizer ‘obrigado Deus’. Agradeci por estar vivo e ter conquistado esse sonho que eu tinha, de voltar a correr”.
As palavras são de Eduardo Schweitzer, 28, de Bom Retiro do Sul. Há sete meses ele passou por uma cirurgia cerebral para a retirada de um tumor. O relato resume a emoção em completar a sua primeira prova de corrida depois do procedimento.

Na preparação para a largada, em meio às outras 1,4 mil pessoas que participaram da primeira etapa do Circuito dos Vales/Omega Construtora, em Santa Clara do Sul, ele controlava o horário no relógio. Quando passou pelo pórtico, começou a cronometrar o tempo.

Durante o trajeto, passou por diversos amigos e colegas da equipe de corrida Santiago Running, com quem compartilha treinos e provas. Mesmo em meio à concentração com os passos, o ritmo e a respiração, quando algum conhecido via Eduardo, não faltavam gritos de incentivo e, inclusive, fotos para registrar o momento na história.

Depois de pouco mais de 18 minutos do sinal que deu início à prova, ele cruzou a linha de chegada. O percurso de 3 km foi completado com sucesso. O dia 24 de março de 2024 passou a ser especial. “Foi incrível. Muito difícil, mas a sensação é ótima, de vitória”, conta.

O diagnóstico

Schweitzer completou a sua primeira meia-maratona no dia 3 de junho de 2023, em Porto Alegre. Uma semana depois, sua vida virou do avesso. Com planos de completar a primeira maratona no ano seguinte, o diagnóstico de um tumor no cérebro fez com que o sonho ficasse em segundo plano.

Durante o intervalo na empresa, teve um mal-estar e em seguida uma convulsão. No caminho para o hospital, mais três convulsões. “O mais estranho é que nunca senti nada. Tudo começou durante a prova em Porto Alegre, quando fiquei tonto. Foi o sinal de que tinha algo errado”, lembra.

Nos dias seguintes, uma bateria de exames até o diagnóstico. Uma lesão no cérebro na área da fala, da articulação da palavra. No dia 17 de agosto de 2023, a cirurgia. O caso ganhou repercussão nacional. Poderia ser apenas mais um procedimento cirúrgico delicado de retirada de tumor, se não fosse o fato de Eduardo estar acordado durante toda a cirurgia de seis horas de duração e tocando ukulele, um instrumento musical de origem havaiana, semelhante a um cavaquinho.

Música durante a cirurgia

Durante a cirurgia cerebral, Eduardo ficou acordado e tocou ukulele. (Créditos: HBB/DIVULGAÇÃO)

O procedimento foi feito no Hospital Bruno Born (HBB), em Lajeado, pelo neurocirurgião Isaac Bertuol. Conforme o especialista, se optou por fazer a cirurgia com o paciente acordado para poder observar se ele apresentaria algum déficit neurológico ou lesão na área da fala e compreensão durante o transoperatório.

“E foi um sucesso, tanto que ele não ficou com nenhum déficit neurológico. Ficamos emocionados. Ele é um paciente jovem, saudável até então, religioso. Ele tocou músicas evangélicas, isso nos emocionou muito durante a cirurgia. A equipe médica e de enfermagem estava engolindo o choro porque tínhamos que fazer o nosso trabalho”, diz Bertuol.

Além do neurocirurgião Isaac Bertuol, procedimento foi feito pela equipe composta pelos doutores Carlo Domênico Marrone (neurologista e neurofisiologista), Fabiano Ruoso (neurocirurgião) e Brás Antônio Finamor (anestesista).

Os primeiros passos para o retorno

Os médicos alertaram Eduardo que a cirurgia poderia deixar sequelas e impedir que ele voltasse a correr. E esta foi justamente uma das principais preocupações dele. A cada conversa com os doutores, a pergunta era a mesma: “vou poder voltar a correr?”. Desistir desse sonho nunca foi uma opção para Schweitzer.

Após os episódios que o levaram para o hospital em 2023, sua preocupação era voltar a correr e, durante o treino, convulsionar. Porém, os médicos o acalmaram e disseram que as chances eram mínimas. A cirurgia foi um sucesso e estava respondendo ao processo de recuperação. “Logo no pós-operatório a recomendação era de evitar esforço físico para a cicatrização. Mas hoje até é importante ele fazer exercícios, como a corrida. Para o bem-estar físico e mental”, complementa o neurocirurgião Bertuol.

Liberado, Eduardo iniciou o trabalho de emagrecimento e condicionamento físico. Alguns cuidados foram essenciais. Como estava em meio aos tratamentos de radioterapia, por exemplo, não podia correr na rua durante o dia pelo risco de queimadura solar. A opção era correr à noite ou em locais fechados, como na academia. E essa vontade de logo voltar ao ritmo exigiu cuidados. Depois de um mês e meio da cirurgia, fez os primeiros testes na esteira da academia. “Eu dava dez passos e sentia dor do meu lado esquerdo da cabeça. Como se tivesse alguma coisa se mexendo ali dentro. Aprendi a ouvir o meu corpo, eu não tinha outra escolha”.

Por isso, aprendeu a dosar e a respeitar o corpo no processo de retomada das atividades físicas. Agora, aos poucos, percebe a evolução e retomada de uma “vida normal”. Durante este período, lembra que fez diversas comparações entre a recuperação da cirurgia e do tratamento, com a prática da corrida.

“Me lembro quando comecei a correr, dos primeiros dois quilômetros que fiz na academia, até chegar nos 21km. De dois, passei para três. E assim evoluí. Conforme o tempo ia passando, fui atingindo distâncias maiores. Até chegar a completar a distância de uma meia-maratona. Então a minha recuperação agora me lembra muito quando comecei a correr. O caminho é subir um degrau por vez, mas sempre pra frente”, diz Eduardo.

Apoio da família e amigos

No período em que esteve afastado das atividades físicas, lembra das mensagens recebidas de amigos e da importância do suporte durante o processo de retomada. Além dos amigos e colegas de equipe, a família foi peça fundamental. Durante o retorno, a mãe e a irmã ficaram receosas e preocupadas com a saúde de Eduardo, mas foram sempre um ponto de apoio. A namorada e o sogro, também corredores, ajudaram na recuperação. E cada movimento, passo e metro a mais percorrido, eram motivos de comemoração.

“Pretendo me esforçar para ser digno desse milagre. Agora, quero fazer mais e reclamar menos. Manter o bom humor e agradecer. Quero correr até longe e mostrar para quem ainda está lutando que é possível. Que existe vida depois do pesadelo”, afirma o atleta.

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